terça-feira, 19 de agosto de 2014

"Eu hoje joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim..."

(Tendo a Lua - Os Paralamas do Sucesso)

Ontem joguei fora a sua escova de dentes. Não foi fácil. Olhava-a sempre, com uma dor-meio-que-esperança de que você voltasse a usá-la. 
As fotos 3x4 na minha carteira ainda permanecem. O recadinho do café da manhã continua intacto. Todas as outras imagens do que fomos estão ali na minha casa, nas minhas gavetas, na minha vida.
Mas a sua escova de dentes (verde - esperança) foi jogada no lixo. Junto com tantos sonhos e planos que tivemos, junto com tantos planos e sonhos que construí sozinha, muitas vezes.
O amor continua aqui. Não intacto. Muito abalado, aliás. Mas aqui dentro de mim, junto com o perdão que tento todos os dias observar como usá-lo. Não sei as regras de um perdão. 
Não resta raiva. Assim como não resta escova de dentes. Resta apenas uma louca vontade de perdoar. Perdoar-te por tudo. Perdoar-me pela raiva despejada em você.
A escova de dentes não tinha mais função ali, a não ser lembrar-me todos os dias de que você não voltaria a usá-la. Assim como você não voltará a ser parte de nada do que fomos. 



terça-feira, 12 de agosto de 2014

 Tá meio embaçada a visualização. Limpo, esfrego, passo até um Veja. Mas não consigo mais enxergar. Nenhuma flanela seria capaz de deixar tudo claro como eu gostaria que fosse.
 A janela que me faz olhar o que já foi não tem nenhum jeito de ser limpa, clara. Tento observar se existe alguma fresta. Não consigo ver. Se há, alguém me diz? Alguém me mostra? Tudo embaçado. Tudo esquisito.
 Percebo-me olhando pra frente, então. Atrás parece que não me pertence mais. E sinto que não pertence. Mas gostaria de enxergar tudo o que vi. Tudo o que vivi. Talvez eu mesma esteja colocando empecilhos pra isso. Mas sei que foi bonito. Tenho lembranças boas e então, porque tudo se embaça assim, no momento em que eu fico tentando enxergar?
 Nada no momento me diz o que fazer. Sigo meus impulsos e pulo de um passado-não-distante para um futuro-que-talvez-seja-límpido. Assim, sigo. Assim, consigo seguir. Assim, me vejo mais eu.

sábado, 9 de agosto de 2014

Marginal, periférica, de quebrada.

A minha morada é o céu estrelado, O chão gelado, muitas vezes molhado. Um cão estressado caminha ao meu lado É meu único amigo, meu fiel aliado Não fui educado, não fui letrado, estudado ou formado Pareço até bacana quando falo rimado Fumo, sim, o meu baseado E isso não me faz viciado Sou mulato, preto, pardo Carrego na pele, nos traços, nos cabelos, todo o meu legado E você, homem branco, hétero, classe média, mimado Filhote do patriarcado Não vai destruir o meu reinado Na sua visão sou mais um largado, jogado Quantas vezes já ouvi “ah, coitado!” Mas deixo aqui, na lata, o meu recado Não vai ser nenhum homem fardado Falido, cobra criada do estado Que vai olhar nos meus olhos e dizer que eu tô errado.