domingo, 27 de abril de 2014

Cenário: Circo
Um único artista: a mulher-palhaça
Público pagante: 1
Público convidado: 0

Black-out. Apenas acende-se a luz do picadeiro. Entra a mulher-palhaça.
Ouve-se o grito do público-pagante: "Eeeee! Nossa, que linda! Isso! Maravilhosaaaa! Ahahaha! Que genial!!!"
A mulher-palhaça dá um passo para a esquerda e abaixa para amarrar os sapatos: "Incrível! Isso! Ahahaha. Maravilhosa, mesmo! Linda, linda! Ahahahaaha!"
Mulher-palhaça mostra-se um tanto constrangida, mas continua com suas ações rotineiras e espirra, devido aos seus problemas respiratórios: "Ah, tadinha. Nossa, que dó... Como faço pra ajudar? Precisa de algo? Quer remédio? Quer que eu vá até aí?".
A mulher-palhaça finge não ouvir nada daquilo, mas põe seu olhar bem dentro do olhar do público-pagante, como se quisesse dizer algo. Mas cala-se.
A mulher-palhaça, então, resolve que vai sentar e calar-se, por quanto tempo ela achar necessário. O público-pagante vai ao delírio: "Isso, fica quieta mesmo, assim que é bom! Fica quieta mil vezes!".

A cena vai se desenrolando durante dias, meses... Ali, apenas a mulher-palhaça e o público-pagante se entendem. O resto do mundo prefere se abster de estar próximo disso tudo. O resto do mundo tem mais o que fazer. Exceto eu que narro essa história, com olhar de quem não tem mais nada a fazer, a ganhar ou a perder.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

And so it is.

Acaba tudo em piada. Em meme. Nas mensagens nunca mais respondidas.
Então é isso, suas roupas não mais caberão no meu guarda-roupas, seu sorriso não mais se encaixa no meu como peças de Lego, seus dedos não mais tocarão meu rosto de modo leve, deslizando pelos meus poros, meus pelos, meus seios, suas fotos não terão mais tanto brilho, seu riso parece mentiroso, sua boca parece querer dizer tanto e você se cala.
Então é isso, não há conto de fadas, não há pra sempre, não há vida após o fim, não há lembranças do primeiro beijo, da primeira declaração de amor, da primeira gargalhada, da primeira briga. Não há lembrança dos dias de sol embaixo das árvores, dos dias chuvosos com vinho e cobertor, não há lembrança de mais nada.

Suas piadas, sua ironia, seu sarcasmo que entregam o que você nega, me faz acreditar que então é isso. Que não há mais nada. Que não há verde-da-cor-da-esperança.

I can't take my mind off you.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Então, depois de tudo, te sei muda.
Depois de todos os toques, carinhos, carícias, promessas, juras, amores, sobra-me o silêncio que vem daí. Um silêncio mais ensurdecedor do que qualquer grito agudo.
Vem como uma espada e crava em meu peito - e ouvido -  que não sou mais. Grita pra mim que não sou mais.
Deixo de ser, apenas.
Atento-me ao seu pedido calado e tento me manter também calada. Minhas palavras escorrem pelos dedos e tomam forma nessa tela em branco, antes pintada com tanta cor, hoje prevalecendo o cinza e a dor.
Como tentar esquecer tudo que fomos, se pra mim, ainda somos?
Como tentar entender tudo que passa, se pra mim, não tem mais graça?

Ainda sinto seu aroma pelos lençóis, travesseiros e até pelo meu corpo desnudo.
Ainda sinto seu toque chegando, de mansinho, me acordando e fazendo carinho.

E o silêncio, esse que transborda de você, me faz mais uma vez adoecer.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Hoje é 23 e meu peito desaba só de lembrar essa data. Hoje é 23. E seu sorriso sorri à distância.
Hoje é 23 e eu já não sou mais quem eu era. Cadê o chão por onde eu caminhava e onde havia cor?
Hoje é 23 e nada faz mais sentido...

quarta-feira, 16 de abril de 2014

"Parece que foi sonho!" - pensei em voz alta.
O ambiente onírico me vem a mente toda vez que me lembro do nosso último encontro. Você, ali, parecia aquela menina de 2009. Aquele sorriso com o olhar, aquelas lágrimas escorrendo pelo rosto, aquela inocência.
Eu senti meus joelhos falharem e achei até que não ia conseguir ficar mais de dez minutos ao seu lado.
Mas então, as palavras foram saindo, sem fazer força, sem forçar a cabeça, a mente... Foram apenas deslizando pelas cordas vocais e saindo, saindo, saíram.
Atingiram seu peito e senti você se abrir (não por completo, você ainda tem aquela mesma coisa de sempre de não se deixar abrir) e me deixar entrar, mais uma vez, onde é meu lugar.
Mas meus medos ainda estão aqui. Os seus ainda estão aí. A gente ainda dá voz a eles, na maioria das vezes. Temos medo de lutar. E é por esse medo, que me afasto. E é por esse mesmo medo que tento me aproximar. Uma confusão aqui dentro, uma confissão aqui fora.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Ando perdida, sem chão. Tropeço em meus pensamentos. Sorrio, vez ou outra. 
Procuro em meio à multidão seus olhos. Não os encontro. Finjo que está tudo bem, abraço a solidão e danço. Sozinha.
Esqueço-te por segundos. De repente, com os olhos fechados e dançando-me, sinto seu cheiro. Seu gosto específico. Sinto seus braços enlaçando-me. 
Os olhos se abrem e sinto o vazio. Os soluços se tornam presentes.
A vida mudou, tento compreender. Tento compreender que seu sorriso já não sorri mais pra mim, que outros braços seguram seu corpo (esse corpo que eu quis tanto proteger de tudo), que sua boca já quase não emite as letras que formam meu nome.
Me calo. E finjo. Aprendi com o mundo a ser fingidora. A fingir sorriso quando os olhos querem lágrimas. A fingir alegria quando o peito quase explode de dor.

Os dias têm sido difíceis. Mas seu cheiro presente em tudo que eu faço, parece me acalmar.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Só pra te lembrar que conheço cada detalhe do seu corpo: o que você gosta e o que você odeia.
Conheço cada pinta que interligadas formariam a galáxia mais bonita do mundo. Você sabe disso, né? Que todas as pintas do seu corpo, interligadas, formam a mais bonita galáxia.
Conheço seus cheiros, desde aquele ali bem perto do pé do ouvido até o cheiro das suas curvas.
Seu sorriso-gargalhada, que fazem seus olhos se espremerem quando ri. Conheço, também, aquele fio bem no topo da sua cabeça que você não deixa ninguém mexer.
Conheço seus dentes. Sua marca de cigarro. Sua música preferida. Sua roupa preferida.
Conheço seus domingos a tarde e conheço seu riso noturno.
Sua língua, seus gestos. Sua vida, seus gostos.
Conheço seu abraço apertado e o som que faz quando você pisa.
Conheço tudo tão bem que ao afastar-me, me sinto perdida...

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Acordei, como que em um impulso, já quase levantando da cama e tateando o nada. Acordei assustada, correndo. Estava atrasada. Olhei ao meu redor e tudo aquilo que era escuridão quase me devorava. Deu medo. Suei frio. Coração acelerou.

Não enxergava minhas mãos, mas as senti tremer como nunca havia sentido antes. De repente, um espelho. Enxerguei-me nua: por dentro e por fora. Enxerguei tudo o que eu não queria ver. E tudo aquilo que eu precisava observar em mim.

O espelho era a única coisa iluminada em meio à imensa escuridão. Só conseguia ver-me: ventre, tripas, veias, dores, cortes, traumas, cores. Por alguns instantes, olhei tudo com nojo de mim. Nojo daquilo que deixei aberto, que nunca permiti cicatrizar. Logo, comecei a observar as cores. Cinzas, vários tons. Em meio ao cinza, surge um vermelho escarlate que logo começa a se transformar em vinho até tornar-se lilás-rosa-azul. Eu gostava do que via, então. Observei mais profundamente, notando as coisas mais bonitas dentro daqueles tons multicores. Sorri um sorriso bobo. Sorriso que rangia ao ser aberto – parecia um riso enferrujado, que há eras eu não sorria.

Analisei-me profundamente. Desde o meu mais íntimo desejo ao meu mais pavoroso medo. Observei todos os monstros que já matei em minha caminhada. Observei, também, as metamorfoses em minhas borboletas internas. Observei as mudanças de cores e a vida presente em mim. O sorriso agora saía sem ranger. Abria-se uma porta no meu corpo. Deixava-me aberta.

Lembrei-me enfim, de que estava atrasada. Atrasada para que, pergunto-me? Meus olhos, que continuam a observar-me no espelho, sorriem e respondem sem sequer emitir som algum: estava atrasada para entender-me.

terça-feira, 1 de abril de 2014

"No entanto a tua presença 
é qualquer coisa como a luz e a vida 
E eu sinto que em meu gesto 
existe o teu gesto e em minha voz a tua voz..."
(Ausência - Vinícius de Moraes)

Abandono o desejo de ver-te (e será que abandono mesmo?). Abro mão das minhas vontades. Seguro no ar o abraço vazio. No instante em que você foi embora, meus braços enlaçaram o nada. E assim, permanecem. Meu olfato ainda sente o cheiro dos teus cabelos. O cheiro que pairou no ar quando você virou as costas. Meus olhos ainda seguem teus passos (eles conhecem bem onde você pisa). De longe, observo-te. Na cabeça, nas lembranças, aquele beijo que faltou no fim. 
Hoje sou a completa lembrança. A lembrança daquele futuro imaginado.