quinta-feira, 29 de novembro de 2012

40 aos 25



Era um dia comum, um dia lilás, ela costumava dizer. Dias incomuns, eram dias pinks, laranjas e verdes. O dia lilás era só mais um.
O café cheirava pela casa toda. Os pães fresquinhos, recém buscados na padaria, lhe davam água na boca. Não tinha ninguém em casa, só ela e Brava, a cadela de olhos cor de mel. 
Dividia o pão com a cadela. O mundo era só isso, naquele momento. Nada acontecia, nada se movia, 
Seu olhar, parado, estático, dizia quem ela era no fundo. Aos 25 anos já havia se tornado uma mulher de 40. Tudo era drama, tudo transbordava pelos seus olhos, tudo era demais.
E ela era de menos. Era de menos pra Diogo, o ex namorado que a trocou pelo melhor amigo, era de menos pra sua mãe, que havia se mudado pra Los Angeles pra curtir a vida, era de menos até pro carteiro que nunca esperava que ela saísse a porta pra entregar suas cartas em mãos, deixava sempre naquela maldita caixinha feita de ferro.
O olhar de Brava era um olhar feliz e misterioso, quase felino. Ela costumava dizer que Brava era pra ser seu cão de guarda, mas estava mais pra um gato dorminhoco.
Deitou-se no chão da cozinha, como fazia costumeiramente, bem perto da geladeira pra que pudesse olhar de baixo aquele monte de ímãs afixados nela. Olhando assim, eles tomavam outra forma. Era disso que ela gostava... 
Abril foi embora, vieram outros meses e ela, continuava deitada. Morreu ali, ao lado de Brava, que fugiu momentos após a morte. Morreu aos 40, com 25. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Eu.

Sou mulher. Uso all star quase diariamente. Tenho uma coleção de scarpins também. Me maquio pra sair. Gosto de jeans e camiseta. Gosto de estampas diferentes. Uso pouca roupa social. Gosto de bolinhas e listras, às vezes arrisco no xadrez. Faço as unhas quase toda semana e tento mantê-las bonitas. Passo minhas camisetinhas. Ouço músicas e canto-as no chuveiro. Gosto de rock, mpb, samba, maracatu, rap, reggae e pop. Danço ao som de Madonna, Michael Jackson, Beyoncé e toda e qualquer música que me dê comichão. Tenho sonhos, planos, vontades. Ainda terei uma gata. Ainda terei mais tatuagens. E um piercing. Passo desodorante sem cheiro pra não estragar o cheiro do perfume. Adoro perfumes. Tenho convicções de fé que vão além das religiões. Tenho coração mole, choro fácil, me emociono com tudo. Amo cachorros. Amo animais. Isso não significa que sou vegetariana. Sou calma, embora exploda em sitiações adversas. Bebo cerveja, água, Coca-Cola, Sprite. Não tenho estômago pra Vodka e afins. Gosto de Tequila, mas raramente bebo, por conta do estômago. Tenho um coração grande pra caralho e falo muitos palavrões. Amo o centro de São Paulo. Amo a cidade de São Paulo. Adoro viajar, embora não curta muito praia. A areia me dá aflição. Gosto de bíquini com a parte de baixo grande. Tenho uma família linda e cachorros que parecem gente. Minhas avós são descendentes de italianos, daí meu sobrenome. Já briguei na época da escola pra defender amigos e minha irmã. Se eu amo, eu defendo. Sou intensa, não sei viver na superfície. Se não há mergulho, não me vejo entregue. Amo uma pessoa. Uma pessoa que se parece comigo. No corpo, no modo de falar, nos gostos musicais. No time. Sou corinthiana e amo uma corinthiana. Sou homossexual. Sou diferente, sou igual. E não entendo, mesmo, os olhares pelas ruas. Não entendo a sua rejeição, o seu ódio, a sua raiva. Nunca vou entender.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Passado-presente

Olhou a seu redor pra ver se ninguém espiava o que ele fazia. Tremia lembrando do que havia passado nesses anos sem notícias e, de repente, aparece ali, na tela do seu computador, com uma solicitação fofa, dizendo: "acho que podemos voltar a nos falar, não?". Mentalmente ele respondia bradando: "Não, não podemos!". Mas no fundo, ele queria dizer tudo aquilo que ficara engasgado quando o ir embora tornou-se um ato comum, como andar. Ir embora, nesse caso, não precisou nem de um adeus. Apenas o telefone desligado, os e-mails não respondidos e os presentes nunca entregados.
Nesses anos todos, foram uns cinco, seis, ele jamais imaginou que um dia veria novamente aquele sorriso, mesmo que fosse através de uma tela. Ficava se achando o cara masi infantil do mundo. O tempo havia passado, muitas histórias aconteceram na sua vida, mas essa não passou. E em todos esses anos, ele nunca soube que não passou, soube apenas ali, quando recebeu aquele oi escrito em uma tela branca.
Foi cerca de uma semana até achar que poderia voltar a ter contato. Porque não? Tinha curiosidade em saber os caminhos que Alexandre seguiu, as coisas pelas quais ele passou. Alexandre sempre foi interessante. Interessantíssimo, aliás. E agora se tornou um homem, cheio de tatuagens (na época havia apenas uma e outra nos planos), formado em jornalismo, exercendo da melhor forma a sua profissão. E ele ali, estagnado, na sua vidinha... Na sua vidinha que parou, deu-se conta, no momento em que Alexandre deixou de atendê-lo. Ele mal sabe contar quantas vezes esteve com Alexandre. Mal sabe dizer o que houve entre eles. O que ele sabe é que jamais tiveram uma relação, mas ele se apaixonou. Naqueles poucos beijos, naquelas poucas noites e tardes e conversas e... "É, não foi pouco.".
Um sorriso brotou em seus lábios e deu-se conta de que ele realmente quer Alexandre por perto. Seja como for.